As fotos são de Guilherme Ramos (@registroautomotivo)
Nos anos 1990, a indústria automotiva global vivia uma efervescência de criatividade para fisgar um público que hoje parece distante das concessionárias: os jovens recém-habilitados. Em um cenário onde os carros de entrada costumavam ser sinônimo de painéis cinzas, bancos ásperos e total monotonia estética, a Peugeot teve uma sacada genial em setembro de 1993. A marca francesa decidiu que, se o orçamento era curto para oferecer luxo, o veículo compensaria transbordando personalidade. Nascia ali o Peugeot 106 Kid.
Mais do que uma versão de entrada, o "Kid" se transformou em um manifesto de estilo sobre rodas, marcando época tanto na Europa quanto no Brasil pós-abertura das importações.
O carro que vestia jeans
O grande trunfo do 106 Kid não estava sob o capô, mas sim na cabine. Para conquistar estudantes e jovens urbanos, a Peugeot fez uma parceria conceitual implícita com a peça de roupa mais democrática do planeta: a calça jeans.
Ao abrir a porta do compacto, o motorista não encontrava a tradicional padronagem sóbria da época. Os bancos e as laterais de porta eram totalmente revestidos em tecido denim (jeans azul), decorados com costuras aparentes em tons vivos de amarelo ou vermelho e o logotipo "Kid" elegantemente bordado no encosto.
Para completar a atmosfera pop, o carpete do assoalho era tingido em azul-marinho e os instrumentos do painel ganhavam um fundo azul exclusivo. Até as áreas com lataria exposta — um recurso comum para cortar custos em carros populares — passavam a fazer sentido ali, conversando perfeitamente com a proposta despojada e rústica do modelo.
Simplicidade mecânica a favor do bolso
Se o visual apelava para o coração, a ficha técnica conversava diretamente com a carteira de quem estava começando a vida profissional. O 106 Kid era movido pelo valente e robusto motor da família TU9, de quatro cilindros (o popular 1.0), equipado com injeção eletrônica monoponto.
Com modestos 50 cavalos de potência e 7,5 kgfm de torque, o Kid estava longe de ser um foguete — o zero a 100 km/h beirava os 20 segundos. No entanto, ele tinha uma arma secreta: o peso. Pesando apenas 795 kg, o carrinho compensava a pouca potência com muita agilidade no trânsito urbano e uma condução direta, quase como um kart.
O grande argumento de vendas, porém, era o consumo de combustível. Em uma época em que a eficiência começava a ditar regras, o 106 Kid entregava médias que passam dos 15 km/l na estrada com extrema facilidade, transformando qualquer nota de dinheiro no posto de combustível em centenas de quilômetros de autonomia.
O impacto no mercado brasileiro
Quando desembarcou no Brasil em meados da década de 1990, o Peugeot 106 Kid encontrou um mercado de carros "populares" altamente competitivo, dominado por Fiat Uno Mille, Volkswagen Gol e o recém-lançado Chevrolet Corsa.
Embora não trouxesse itens de conforto como direção hidráulica ou vidros elétricos — luxos proibitivos para a categoria na época —, o francês se destacava pelo refinamento dinâmico. A suspensão bem acertada e a posição de dirigir superior à dos concorrentes nacionais logo atraíram um público fiel. Ele se tornou o "segundo carro da casa" ideal ou o companheiro inseparável de universitários que queriam fugir do lugar-comum.
De popular a "Youngtimer" cobiçado
O Peugeot 106 Kid permaneceu em linha na Europa até o verão de 1998, quando a marca reestruturou suas versões de entrada. Três décadas após o seu lançamento, o modelo vive um fenômeno interessante: a transição de um carro francês antigo e barato para um youngtimer de coleção (termo usado para clássicos modernos das décadas de 1980 e 1990).
Hoje, encontrar um Peugeot 106 Kid rodando é uma raridade; encontrar um exemplar com o tecido jeans dos bancos original, sem rasgos ou desbotamentos causados pelo sol, tornou-se uma verdadeira caça ao tesouro automotiva. O modelo que nasceu para ser o mais barato da gama hoje arranca sorrisos nostálgicos por onde passa, provando que o bom design e a irreverência são atemporais.
Ficha técnica: Peugeot 106 Kid (1995)
Motor: TU9ML/Z, 1.0 litro, 4 cilindros em linha, 8V
Potência: 50 cv a 6.000 rpm
Torque: 7,5 kgfm a 3.700 rpm
Câmbio: Manual de 5 marchas
Peso: 795 kg
Diferencial: acabamento interno exclusivo em tecido Jeans (Denim)





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