Edgard Mello Filho foi campeão brasileiro da Divisão 3 em 1974 com um Chevrolet Opala que tem uma história interessante e uma ficha técnica muito peculiar. Mas para contar essa saga, precisamos voltar um ano antes.
Em 1973, após "importunar" amigos de uma concessionária em Santos por dois anos, Edgard finalmente obteve seu Chevrolet Opala usado, de quatro portas. Para o público e rivais, utilizar um sedã familiar na Divisão 1 parecia uma desvantagem evidente diante dos modelos cupês. No entanto, o que muitos viam como um carro de passeio comum era, na verdade, uma escolha baseada em uma percepção técnica refinada. Edgard sabia que aquela configuração escondia um segredo estrutural que seria o diferencial contra a armada de Ford Mavericks que dominava a categoria.
O Opala Divisão 1 de Edgard - escolha estratégica pelo modelo 4 portas
A grande sacada residia na rigidez torcional. Sob o regulamento rígido do Grupo 1 - FIA, que proibia diferenciais autoblocantes e grandes modificações mecânicas, a vitória dependia de como o chassi lidava com a potência nas curvas. Edgard e seu mecânico “japonês”, na cidade de Santos, aplicaram um "truque" mestre: a ancoragem estratégica da gaiola de proteção (santo-antônio) na estrutura do modelo de quatro portas. Ao “amarrar” a gaiola corretamente, o chassi trabalhava de forma mais eficiente, impedindo que a roda traseira interna perdesse contato com o solo nas curvas. Enquanto os Fords Mavericks patinavam a roda interna no ar, o Opala de Edgard mantinha a tração plena, transformando a estabilidade em segundos preciosos a cada volta no "Templo".
Os grid´s de 1973 do campeonato paulista de automobilismo na Divisão 1 eram uma visão de Davi contra Golias: apenas três Opalas de seis cilindros cercados por um mar de Mavericks V8. Em uma corrida memorável na temporada, Edgard, partindo da primeira fila, utilizou sua aguçada capacidade de observação para antecipar a largada: ele percebeu que o diretor de prova, Mário Patti, movia o joelho esquerdo segundos antes de baixar a bandeira. Antecipando o sinal visual, o Opala saltava na frente.
O duelo épico foi contra o Maverick de Estanislau Franco. Ciente de que o V8 o superaria na reta, Edgard planejou o xeque-mate para a freada do sargento. Mantendo-se colado no vácuo durante a curva do Sol, ele aproveitou a superioridade de “chão” do Opala para mergulhar por dentro no limite da aderência. Ao "matar" a entrada do S e garantir uma saída mais limpa para o Pinheirinho, neutralizou a potência bruta do adversário. A vitória heroica foi celebrada por uma arquibancada lotada e muito animada
A briga ferrenha com o Maverick de Estanislau Franco
A performance magistral não passou despercebida. Reinaldo Campelo, piloto e chefe da equipe Itacolomy-Safra, assistindo das arquibancadas, viu em Edgard o talento necessário para sua equipe oficial. O convite para a Itacolomy mudou tudo. Edgard tornou-se um piloto com "carteira assinada", mergulhando no departamento de competição ao lado do lendário mecânico Caíto “Nakamura”. Ali, a sensibilidade de pista de Edgard uniu-se ao rigor técnico de uma estrutura de fábrica, preparando o terreno para o salto mais ambicioso de sua carreira: a transição do Grupo 1 para a brutalidade da Divisão 3.
Caito ajustando a usina de força do Opalão Divisão 3
A glória na Divisão 3 chegou de forma quase fortuita durante a segunda etapa do campeonato paulista de automobilismo de 1974. Precisando de quórum na pista, Campelo desafiou Edgard a assumir o cockpit de uma máquina radicalmente diferente, o Opala de Divisão 3. O contraste sensorial foi imediato. Do comportamento civilizado do Grupo 1, Edgard saltou para o que ele mesmo descreveu como um "cavalo árabe": um bólido com ronco brutal e aderência absurda. Partindo do final do pelotão, Edgard escalou o grid com uma voracidade impressionante, vencendo a prova em sua estreia na categoria e selando seu destino como o piloto que domaria o lendário Opala ex-Hollywood.
O poderoso Opala Divisão 3 concebido pelo mago de Alta Gracia, o argentino Oreste Berta
O carro era uma joia da engenharia, concebido pelo "Mago de Alta Gracia", o argentino Oreste Berta, para a equipe Hollywood de Luiz Pereira Bueno. O carro não foi muito bem aproveitado pela equipe e Reinaldo Campelo, vendo a possibilidade de ter um terceiro modelo Divisão 3 no seu plantel, comprou o carro. O Opala era um laboratório tecnológico que desafiava os conceitos da época:
- Motor: 6 cilindros em linha, recuado no berço, comando de válvulas iskenderian, utilizando gasolina verde de aviação (130 octanas), preparado para entregar cerca de 420 cavalos de potência.
- Alimentação: três carburadores Weber 48 de corpo duplo, com as cornetas expostas agressivamente através do capô.
- Câmbio: 5 marchas Saenz ou ZF, dependendo da pista.
- Suspensão: sistema especial De Dion, uma solução sofisticada de Berta para resolver os problemas crônicos de tração do eixo rígido original do Opala.
- Aerodinâmica: um inovador aerofólio invertido, posicionado estrategicamente sob o porta-malas para gerar pressão negativa.
- Pneus: slicks da marca Goodyear (blue strick).
A abertura do Campeonato Brasileiro de Divisão 3 de 1974 em Goiânia forneceu uma das histórias mais surreais do nosso automobilismo. Liderando com folga sobre Edson Yoshikuma, o acelerador de Edgard travou totalmente aberto devido a uma falha nos gatilhos dos carburadores Weber. Com o motor berrando em rotação máxima constante e as curvas se aproximando, a maioria abandonaria. Edgard, contudo, usou o instinto: passou a modular a potência através da chave geral (o botão vermelho no painel). Ele desligava e ligava o sistema elétrico de forma intermitente, "pulsando" o motor para controlar a velocidade. Com uma precisão cirúrgica, venceu a prova sem que os adversários notassem a falha, transformando um grande problema iminente em um pilar emocional para o título.
Edgard foi cerebral e regular para conquistar o título brasileiro de 1974 na Divisão 3
Vencer a poderosa equipe Hollywood e seus Mavericks preparados na Argentina exigia mais do que apenas acelerar; exigia inteligência tática. Edgard compreendeu que o campeonato seria uma guerra intensa. Enquanto os rivais buscavam a vitória a qualquer custo, Edgard priorizou a regularidade. Acumulando segundos, terceiros e quartos lugares com disciplina, ele somou os pontos necessários para bater os adversários, dentre eles a equipe Hollywood e seu poderoso Maverick. Ao final de 1974, a estratégia rendeu frutos: Edgard Mello Filho sagrou-se campeão brasileiro de Divisão 3.
O poderoso Maverick-Berta V8 da equipe Hollywood foi o grande adversário
O visual dos carros da Divisão 3 eram um show à parte

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O MECÂNICO DO PRIMEIRO OPALA DO EDGAR ERA O PORTUGUES QUIM AQUI DE SANTOS SP
ResponderExcluirO MECÂNICO DO PRIMEIRO OPALA DO EDGAR ERA O PORTUGUES QUIM AQUI DE SANTOS SP
ResponderExcluirCLÁUDIO CAVALLINI