Feche os olhos e tente recordar o cheiro de óleo e pneu queimado misturado ao ar fresco de uma noite de sexta-feira em São Paulo. O cenário é o nosso lendário Autódromo de Interlagos. Após um hiato que vinha desde a proibição de corridas noturnas em 1976, os motores finalmente voltaram a rugir sob a luz artificial para a abertura do Campeonato Paulista de Divisão 3.
Aquele maio de 1978 não era apenas sobre motores. O Brasil vivia um momento de profunda expectativa política sob o governo de Ernesto Geisel, com os ventos da "abertura" começando a soprar. Nas rádios, o cenário era dominado pela "Disco Music"; o filme Os Embalos de Sábado à Noite havia instaurado uma febre, e a juventude paulistana se dividia entre o ronco dos motores na sexta-feira e o brilho das discotecas no final de semana. Era a São Paulo que não parava, vendo o metrô expandir e a moda das novelas como Dancin’ Days ditar o ritmo das ruas.
A atmosfera naquela noite era de pura eletricidade. O que começou como uma "promoção especial" antes de um feriado prolongado transformou-se em um espetáculo de massas. As arquibancadas estavam tomadas por um público vibrante, superando o movimento das tradicionais manhãs de domingo. Para os pilotos, o frescor da noite era um alento; para as máquinas, uma benção que permitia aos motores trabalharem com melhor rendimento.
Amadeo Campos e seu Fusca Divisão 3 - o grande destaque da abertura do Paulista em 1978
Desde os treinos, um nome ecoava nos alto-falantes: Amadeo Campos. Com precisão cirúrgica, ele cravou a pole-position com o tempo de 3m35s71. A largada, prevista para as 21 horas, atrasou 40 minutos devido a um susto: o acidente de José Carlos Cavagnoli no miolo da pista durante o aquecimento. Mas, quando a largada foi dada, o espetáculo compensou a espera.
Amadeo, pilotando seu Volkswagen Fusca, não deu chances aos rivais, assumindo a ponta logo no início e focando em consolidar a vitória. Enquanto ele sumia na frente, o verdadeiro show acontecia atrás: Arturo Fernandes, Lara Campos e Edgard de Melo Filho protagonizaram uma disputa ferrenha, trocando posições a cada curva.
Edgard de Melo Filho trouxe a grande novidade da noite, estreando o Chevette de Divisão 3. Com para-lamas largos e um visual agressivo, o carro impressionou pela aerodinâmica de sua frente modificada, embora o motor ainda estivesse em fase de acertos. Outro destaque foi Edson Yoshikuma e seu belo Passat, que, apesar de estar no início do desenvolvimento, mostrou grande potencial.
Edgard Mello Filho estreou seu Chevrolet Chevette de Divisão 3
Após 12 voltas de pura adrenalina, o resultado selou o óbvio: Amadeo venceu com um tempo total de 44m14s53, registrando a melhor volta da prova. O pódio foi completado por:
2º lugar: Arturo Fernandes (VW Fusca da equipe Luxforde).
3º lugar: Edgar de Melo Filho (Chevrolet Chevette).
4º lugar: Lara Campos.
Entre os carros da Divisão 1, com preparação mais simples, o destaque foi Rômulo Gama, que levou seu Volkswagen Passat ao sexto lugar na classificação geral. Aquela noite de sexta-feira provou que o automobilismo paulista pulsava forte, unindo a técnica das pistas ao fervor cultural de uma era inesquecível. Amadeo saiu vitorioso, mas quem ganhou o presente foi o público, que viu a história ser escrita sob os holofotes.




















































