Do apoio ao templo do automobilismo: a epopeia do Celta brasileiro em Daytona
A equipe paulista Callflex Racing, nascida em 2018 da paixão de seus sócios pelo esporte motor, escreveu um capítulo inusitado na história do automobilismo brasileiro ao levar um Chevrolet Celta para competir nas 14 Horas de Daytona, nos Estados Unidos. O projeto, que inicialmente parecia improvável, transformou um antigo carro de frota em uma máquina de competição capaz de encarar um dos templos da velocidade mundial.
A origem: do trabalho para as pistas
O carro escolhido para a missão foi um Celta fabricado em 2012, originalmente utilizado como veículo de serviço na empresa dos sócios da equipe. Após dez anos de uso, o carro seria vendido, mas acabou sendo adquirido pelos próprios sócios para servir como veículo de apoio nos autódromos, transportando equipamentos e peças.
A trajetória competitiva do "Celtinha" começou por acaso, durante um track day em Interlagos, onde, mesmo sem preparação e ainda com o interior completo, demonstrou potencial ao registrar tempos surpreendentes para um carro 1.0. Após anos de sucesso em competições nacionais como a Rally Clássicos, onde o carro chegou a ser vice-campeão, a equipe decidiu ousar: levar o projeto para a ChampCar Endurance Series, nos Estados Unidos.
Engenharia brasileira para o mundo
Para enfrentar o desafio internacional, o Celta passou por uma transformação radical. O motor original VHC deu lugar a um Família 2 (2.0) vindo de um Vectra, acoplado a um câmbio de seis marchas do Chevrolet Onix. A preparação técnica incluiu:
Potência: 208 cavalos de motor e 185 de roda
Peso: apenas 880 kg (com o piloto)
Eletrônica: injeção programável FuelTech e telemetria Protune
Suspensão: amortecedores Bilstein com molas nacionais
Desenvolvimento: foram gastas 800 horas em simuladores para definir o acerto de câmbio, pneus e suspensão antes mesmo do carro embarcar
O projeto foi aceito pela organização da ChampCar em uma classe de exceção, funcionando de forma semelhante ao "Garage 56" das 24 Horas de Le Mans, por ser um modelo que nunca foi comercializado no mercado americano.
O drama das 14 Horas: o incidente do capô
A participação em Daytona foi marcada por um momento de extrema tensão logo no início da prova. O piloto Alex Benedetti, que largou na 90ª posição em um grid de 106 carros, viu o capô do Celta se soltar e voar contra o para-brisa enquanto o veículo estava a 195 km/h no famoso banking (curva inclinada) do autódromo.
As travas do capô entortaram para baixo com a força do vento, bloqueando completamente a visão do piloto. Guiando-se apenas pela linha amarela da pista e pelo vácuo dos carros à frente, Benedetti conseguiu levar o Celta de volta aos boxes com segurança. Para continuar na prova, a equipe tomou uma decisão drástica: quebrou o para-brisa danificado, removeu os estilhaços com um aspirador de pó e retirou a tampa traseira do porta-malas para evitar o efeito de "bolsão de ar".
Superação e legado
Apesar de perder cerca de uma hora para os reparos, o Celta retornou à pista e completou a prova, tornando-se uma atração à parte para o público e para os demais competidores americanos. A equipe foi elogiada pelos fiscais técnicos pela qualidade da montagem e segurança do veículo, que respeitava rigorosamente os padrões internacionais.
O lema "Never Give Up" (nunca desista), estampado no carro após um evento da Chevrolet no Brasil, tornou-se o símbolo da jornada em Daytona. Segundo os integrantes da Callflex Racing, o objetivo agora é manter o Celta nos Estados Unidos pelos próximos três anos, participando de outras provas icônicas como Sebring e o Circuito das Américas (COTA).













Os meninos são maravilhosos, orgulho de fazer parte dessa história, mesmo que seja um pouquinho!
ResponderExcluir